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sábado, 8 de março de 2014

UMA SINFONIA À BENFICA


Esta é uma obra que merece ser divulgada na Gloriosasfera, para que no mínimo os benfiquistas tenham conhecimento desta magnifica sinfonia inspirada no Benfica, da autoria do grande Maestro António Vitorino de Almeida, que infelizmente parece estar perdida no tempo... deixo-vos as notícias da época e o conto da inspiração da obra pelas palavras do próprio Maestro.
Infelizmente os arranjos finais desta sinfonia nunca foram concluídos e a obra perece ter ficado na prateleira... algo que não devia de acontecer!
Desde já um muito obrigado ao Torgeir Bryn pela disponibilidade que demonstrou para que este post fosse possível... o texto é longo, mas vale a pena ser lido e os 7 minutos disponíveis da sinfonia são um regalo para os ouvidos... deliciem-se!

"O maestro Vitorino de Almeida compôs uma sinfonia intitulada Benfica e foi a Sófia, a 5 e 6 de Fevereiro, para a gravar ao comando da Orquestra Sinfónica Nacional da Bulgária. O CD chegará em breve a Portugal e desde já se prevê que se pulverize o recorde de vendas de um CD de música clássica.
É conhecida a paixão encarnada do maestro Vitorino de Almeida, o seu dom de comunicação e a genialidade musical. Emano de centenário, propôs ao presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, compor e gravar uma sinfonia dedicada ao Benfica, ideia que entusiasmou o líder encarnado. O maestro esteve um mês, com uma média de 10 horas por dia, a compor uma sinfonia de meia hora. Um estado febril que só parou quando depositou na partitura as notas com que pretende imortalizar o centenário do Benfica. Depois, foi para Sófia, capital búlgara, para gravar com 88 músicos da Orquestra Sinfónica Nacional da Bulgária. Porquê? Em Portugal apenas há duas orquestras sinfónicas, no Porto e Lisboa, e nenhuma delas poderia responder já, ao mesmo tempo que se tornou bem mais barato gravar em Sófia. Depois, aquela é uma das mais conhecidas orquestras sinfónicas de todo o Mundo. "Há sinfonias dedicadas ao futebol e ao desporto, mas a um clube não creio", refere o maestro, com orgulho. A originalidade é em si um marco, mas outro marco se aproxima. Ou seja, o CD está a ser editado em Salzburgo, Áustria, e chegará em breve a Portugal. A primeira edição contempla 20 mil cópias. Um número modesto no universo benfiquista mas que, ainda assim, é o suficiente para pulverizar o recorde de venda de um CD de música clássica. Esta gravação gerou já a curiosidade da televisão búlgara, que fez uma reportagem no local quando soube ser dedicada a sinfonia ao Benfica. Em breve será lançado e não duvidamos ser esta uma chave de oiro em época de encerramento das festividades do Centenário."
in A BOLA 16-02-2005

De salientar que o produto da gravação mencionada no artigo (prévia à estreia em concerto) originou um CD da editora Numérica com o número de catálogo NUM_1160. Creio não estar a mentir quando afirmo que os custos desta gravação foram integralmente suportados pelo Maestro.
Nas notas do disco, o Maestro aborda de forma exaustiva as temáticas subjacentes na obra:
"(...)A composição e a primeira edição da Sinfonia nº1 destinou-se a celebrar o centenário desse grande clube que é o Benfica e também a universalidade de um jogo genialmente concebido que é o futebol – a cujo fascínio estético poucos serão os verdadeiros artistas que até hoje não se terão rendido…
A “Sinfonia nº1 (“Benfica”), p.21, foi basicamente construída com memórias da minha infância e até utilizando alguns temas que vêm desse tempo e que, por uma razão ou por outra, nunca utilizei, pelo menos em peças que tivesse alguma vez dado como prontas. E por isso lhe atribuí um opus que não coincide de maneira nenhuma com a data da criação definitiva – e até choca em termos cronológicos com opus das outras obras que constituem este CD: “O Judeu”, op.34, “Memórias de Amanhã”, op.99, e “Abertura Clássica”, op.87.

Para todos os efeitos, a temática destas quatro peças é a memória.
A memória das noites que antecediam o domingo ansiosamente aguardado em que o meu pai me prometera levar ao jogo – e também a memória daqueles momentos difusos, entre o sonho e a realidade, que antecedem o adormecer, e em que já se desenrolavam na minha mente as imagens do estádio repleto, os cachecóis coloridos, os chapéus de cartão vendidos à entrada, o homem que alugava almofadas para não nos sentarmos no frio da bancada de pedra, o burlesco das discussões entre os apoiantes deste ou daquele clube, o som cavo dos remates e a bola que entrava na baliza, enrolando-se docemente nas redes…
Essa é a memória do primeiro andamento.
No segundo, lembro a mancha das giestas que bordejavam a estrada ao longo da serra de Monsanto, num contraste entre a tranquilidade campestre da paisagem e o avanço determinado dos automóveis em busca de um melhor lugar nos parques de estacionamento, também delimitados nesse tempo por longas e aromáticas filas de eucaliptos…

A minha mãe vinha muitas vezes connosco, trazia consigo a cadela “Cachucha” e ficava no carro a ouvir música, a ler um livro – e a aspirar a brisa perfumada que agitava a copa das árvores, até que o jogo acabasse…
O meu terror era a hipótese de chover… E recordo uma manhã pertinazmente chuvosa em que, posta de parte a hipótese de irmos ao jogo, fomos visitar a Sé de Lisboa, onde eu nunca tinha entrado… Paramos em frente da pia baptismal que tem azulejos com a figura de Santo António, e a minha mãe, notando o meu ar macambúzio e inconformado, levou-me até junto das grades e disse-me:
- Olha, pede ao Santo António que não chova, pois ele às vezes faz dessas coisas… Quando saímos da Sé, o sol voltara inesperadamente a brilhar, acabamos por ir ao estádio – e essa é a memória do terceiro andamento.
E no quarto andamento, descreve-se efectivamente a grande festa do jogo, a glória desse espectáculo único e sempre renovável nas suas surpresas."
A estreia ocorreu a 19 de Setembro de 2005, no Coliseu dos Recreios (clicar aqui).

Apesar da publicação áudio da obra ter sido célere (não sei como decorreram as vendas, mas não devem ter sido tão espectaculares como previam), e dos materiais de orquestra estarem teoricamente disponíveis para aluguer, o que acontece é que nestes casos a editora de música impressa costuma pagar os trabalho de revisão, edição e composição gráfica com os primeiros alugueres, coisa que nunca chegou a acontecer porque a obra não é programada por orquestras.
O responsável da editora, genro do Maestro e fervoroso benfiquista como tantos de nós, transmitiu-me em 2009 que a única maneira de financiar a publicação física da partitura seria receber encomendas suficientes para cobrir a "empreitada". Infelizmente isso nunca aconteceu (mas não é de admirar, para dizer a verdade) e por isso o trabalho não tem tido evoluções significativas.
A ver o que o futuro reserva. A obra é bonita e muito biográfica, quer das experiências de um jovem adepto benfiquista num domingo de jogo (não as temos todos nós guardadas num lugar especial do nosso coração?), como do impacto que aquela equipa dos anos 50 começava a causar, pressagiando o monstro que varreria a Europa do futebol na década seguinte.

Ps: Atenção que o link do youtube contem apenas os primeiros 7 minutos da obra. Na verdade é uma obra de grandes dimensões, com mais de 30 minutos, épica e exaltante. Digo isto sem assombração, nunca senti grandes afinidades estéticas com a obra do Maestro, por isso estou à vontade para dizer que esta obra é muito bem construída e de uma beleza transbordante, numa oferta generosa que o Maestro fez para aproximar dois mundos que tantas vezes andam (aparentemente) de costas voltadas.
Torgeir Bryn in SerBenfiquista

1 comentário:

  1. Que orgulho eu tenho ter nascido Benfica!!!

    Obrigado Maestro! Nota-se imenso trabalho feito com paixão e muito amor!

    Torgeir Bryn e Biscai@, o meu muito obrigado! Serviço público vocês os dois! ;)

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